sábado, 2 de agosto de 2014

Poesia: Primeira Vez (Versão curta)



Primeira Vez


  
Estou procurando...
Procurando alguém pela noite escura
E fria da cidade
Cheia de pessoas e vazia de sentido
Tenho saudades de alguém
Alguém que há  muito procuro,

Uma saudade vazia de sentido

Como a cidade,
Coleção de almas que perambulam
Pelas luzes frias de néon

Sempre procurei por ela a vida inteira

Mas agora o sentimento bate mais forte
Quero alguém
Como você,
Aquela a quem procuro tanto,
Que me faz falta
Alguém para preencher o meu próprio vazio
Que sinto em mim
Vazio como a cidade cheia
Cheia de sombras,
Sombras de gente,
Gente sem sentido,
Gente precisa Ter sentido?

Não passam de números

Carros, faróis, néon sem brilho
Frio..
Na noite quente e abafada da cidade
Não tem sentido para mim
Tem para eles mesmos?

Assim procuro por você,

Que para mim faca sentido,
De um significado maior `a minha vida
Que me faca feliz

Procuro na cidade

Por você,
Que se comove com coisas como
 o primeiro beijo,
Com o simples sentimento
De se sentir amada
Pela primeira vez
Que há muito deveria Ter ocorrido

Que chore e se emocione

E se sinta tão vazia quanto eu me sinto
Que sinta aquela falta
Imensa,
Que a imaginação não preenche,
A mesma que sinto

Estou pronto para encontra - la

Como pronta você esta’ para mim
Foi muito tempo esta espera
Angustia
Espelhada no néon impessoal da cidade
Veloz e fugaz e duradoura angustia da espera demorada
Como a cidade que percorro esta noite


Por isto procuro por você,

Aquela que esteja sentindo o que sinto,
Que ainda não tenha descoberto o prazer e o êxtase ainda teóricos,
Amar e ser amado
Amar e ser amada
Primeira vez
Correspondência total
Consciência do bem feito
Um ao outro
Comoção
Interação
Integração

Descobrir grandes sentimentos
Em cada pequeno gesto
Aprender juntos como se acaricia
E como se querer bem
Conseguir adivinhar o que o outro sente
Interação
Duas vidas que ganham sentido
Como uma só
Iluminar a cidade
Com pessoas,
Não números,
Mas sentimentos e emoções
O raiar do dia na cidade
Iluminada não pelo frio néon,
Mas pela luz radiante do Sol,
Da vida
Que adquire um novo sentido
Renovada

Então que o milagre da emoção se faca

Nascida da emoção de duas pessoas,
Não números, não carros que passam,
Uma união  em que dois sejam um só
Que um só’ sejam dois
Interação


A sensualidade do tato

 A primeira vez de mãos percorrerem um corpo feminino
Pela primeira vez
Desejo
Profundo, vazio, desesperado
Sem correspondência,
Sem interação
Mãos masculinas acariciando
Corpo feminino
Primeira vez
Permitida, desejada,
Ansiosamente desejada

O nervosismo da primeira vez

Pela primeira vez choro e comoção
Do êxtase glorioso
Primeira vez
Profundo,
Inesquecível
Um novo sentido que nasce
Vai Ter valido a pena
Ter sido feliz
Pela primeira vez
Realmente feliz
Emocionado e comovido
Emocionada e comovida
Por ser feliz e Te –la feito feliz
Por ser feliz e Ter me  feito feliz
Consciência do bem feito
Um ao outro
Comoção,
Interação
Integração

Ganharei as ruas como se estivesse em uma motocicleta veloz
Pelas avenidas
Sol, chuva , arco Íris
Felicidade e êxtase
Na cidade iluminada
Que agora faz sentido
Pois adquiriu humanidade

Estou procurando por você

Que e’ aquela a quem tanto procuro,
Preciso de  seu amor todos os dias
Pois sinto – me vazio
E triste
Pois ainda não estou com você
Aquela única a quem procuro !

Quero encontra-la
 Tão delicada,
Preciso sentir que preciso protege –la
E você precisa sentir que precisa me apoiar
E me fortalecer
Para  que juntos possamos nos aquecer um ao outro,
Corações que batem em sintonia
Interação
Consciência do bem feito
Um ao Outro
Comoção
Interação
Fortaleza  de se ser e estar
Não mais solidão
Vazio preenchido
Integração

Continuarei procurando por você,

Todos os dias, mas,
Ate’ quando?


Fim

 

Cristiano Camargo


A matemática da Filosofia segundo Paralucius Mandraglifus



O Suprassumo da Quintessência é uma série de três contos humorísticos que misturam comédia com filosofia.Ontem coloquei aqui o primeiro, e agora coloco o segundo dos três.




Em uma certa manhã, o discípulo abriu sorrateiramente a porta do grande salão do alto da Torre da Sabedoria e espiou seu mestre, Paralucius Mandraglifus, que estava deitado sobre um tapete e várias grandes almofadas bordadas coloridas. Sempre desatento, o rapaz, achando que falava consigo mesmo em pensamento, acabou dizendo em voz alta:
-Bom, da penúltima vez que entrei aqui, achei que ele estava meditando e ele estava dormindo, da última vez, pensei que ele estava morto, mas ele estava meditando, então, desta vez ele deve estar meditando deitado, pois deve ter cansado de ficar sentado! Mas da próxima vez, preciso ter cuidado: ele poderá estar morto, e não sei se conseguirei acordá-lo da morte!
-Mas será possível ! Você ainda não aprendeu! Toda vez você erra! Porquê você me acordou, discípulo?
-Desculpe –me tê-lo acordado da meditação, Mestre !
-Eu estava dormindo ! Você não entendeu o que eu disse?
-Calma, Mestre, não precisa ficar irritado. Eu entendi sim; o senhor quis me dizer que eu o acordei da meditação, por isto mesmo é que pedi desculpas! É tão certo quanto 2 mais 2 são 4 !
-Não se acorda da meditação, ignaro! Quando se medita é preciso ficar acordado! É preciso se concentrar para meditar! E depois, nem sempre 2 mais 2 são necessariamente 4 em certos pontos de vista ! Vá na cozinha e me traga um fardo bem grande de laranjas !Um fardo tão pesado quanto a sua ignomínia !
-Nossa, mas o senhor está com uma fome daquelas , não? Mas , olha, o senhor me desculpe, mas o senhor vive dizendo que eu sou burro, mas quem está sendo burro é o senhor, pois 2 mais 2 são sempre 4 ! Já  somei isto um montão de vezes e não consegui achar nenhum outro resultado!
-Você está me chamando de burro, ó rei dos asnos? Justo você? Eu vou lhe dar uma lição que você vai ver! E não vai só de matemática, não !Vá e volte logo! Pensando bem, pode  ir e não voltar nunca mais, assim acaba o meu sofrimento!
O Discípulo foi, e depois de algum tempo, para desespero de Paralucius, voltou, carregando um fardo enorme de laranjas.
-Sente –se e coloque o fardo ali. Trouxe uma faca?
-Não, o senhor não falou nada de facas...
-Ah, deixe para lá. Tenho uma outra comigo. Eu devia estar usando para matá-lo, mas a usarei para sua lição de hoje : A Matemática vista do ponto de vista filosófico. Me dê 4 laranjas.
O discípulo pegou a faca, rasgou o fardo e apanhou as laranjas e as deu ao Mestre.
-       Muito bem. Você me disse que 2 mais dois são sempre , e necessáriamente 4.
-       -Sim, mestre, cansei de somar e não achei nenhum outro resultado. Fiquei a noite inteira tentando ...
-       -Esqueça. Muito bem, observe estas 4 laranjas. Vou separá-las em 2 grupos de duas. Na filosofia, nem tudo que e’ obvio ululante é tão evidente assim, se você ver as coisas de diversos pontos de vista relativos e dialéticos. Se eu empilhar estas duas laranjas uma em cima da outra, teremos o quê?
-       -Duas laranjas empilhadas !
-       -Não, ignóbil, 1 conjunto de duas laranjas ! Juntas , elas formam uma só entidade, dois lados de um mesmo fato !Neste caso, 1 mais 1 não é igual a 2, mas 2 é igual a 1, contrariando a matemática . Junte as outras duas empilhadas também. Isto.  Agora, o que temos?
-       Quatro laranjas somadas! Ou duas pilhas de laranjas....
-       Haja paciência! Haja paciência....temos duas entidades unas, discípulo! São quatro lados, de uma mesma coisa, não é isto?
-       -É isto mesmo! 2 mais 2 são 4! Eu não te disse?
-       Estúpido! Como uma entidade lógica e positivista pode ter 4 lados? Eu não acabei de dizer que são 2 lados de uma mesma entidade? Pense em positivo e negativo. Menos 2 mais 2 , qual o resultado?
-       Chii, nunca pensei nisto antes...
-       Mas que tapado! Pensa, pensa, sua mula, o resultado é zero! Negativo e Positivo se anulam! Então, neste caso, duas laranjas mais duas laranjas não resultam em quatro laranjas, estou certo?
-       -Está errado. Elas continuam sendo 4 laranjas!
-       -Eu mato eu esgano, eu arrebento eu, eu...
Paralucius  pegou duas laranjas , uma em cada mão, e as arremeteu uma contra outra com violência. Elas se espatifaram, esmagadas.
-Ainda são duas laranjas? Viu o que acontece quando valores positivos e negativos se encontram? Agora eu lhe mostrei que somadas desta maneira, uma laranja mais uma laranja não são duas, mas zero laranjas!
-Nossa, eu não sabia que a matemática era assim tão violenta! O senhor matou as coitadas das laranjas! Não tem dó delas ?
-Aaaaaaargh! Rugiu de fúria Paralucius.
Após se acalmar um pouco, o Mestre continuou:
-Pegue mais duas laranjas no fardo.
-Aqui estão. A propósito, Mestre, para quê o senhor me pediu tantas laranjas?
-Só vamos utilizar algumas na sua aula. O resto é para eu atirar em você de raiva por você não ter aprendido nada, após a aula ! Mas vamos continuar. Temos agora novamente dois conjuntos de dois lados, positivos e negativos, cada um. Porem não se pode somar, ao juntar-se ambos os conjuntos, os pontos positivos e negativos  de cada um dos conjuntos para tentar formar quatro lados, como poderíamos fazer na matemática, pois neste ponto, ela e a filosofia divergem. Até o ponto em que positivos somados com negativos anulam-se mutuamente, matemática e filosofia concordam entre si. Mas na lógica positivista,  que é exatamente oposta à dialética, positivos e negativos combinam-se em um só elemento, pois este tipo de lógica prega que tudo na vida tem suas vantagens e desvantagens, e ambas formam a vida, não se anulam. Então, se consideramos cada conjunto de duas laranjas, um só conjunto de dois lados, como requer o conceito da Paridade, somando as quatro laranjas não teremos quatro, mas duas. Então, do ponto de vista filosófico, dois mais dois serão igual a dois , não quatro, e na verdade , nem serão dois mais dois, mas 1 mais 1. Então 1 mais 1, neste ponto de vista, serão dois, correto?
-Sim, mestre!
-Ah, não adianta! Errado, errado, tente pensar mais além do que o simples óbvio e busque o significado das entrelinhas! Na filosofia, nada se soma, tudo se combina! Veja, junte as quatro laranjas. Isto. Agora, as duas entidades de dois lados formaram um só conjunto de dois lados, então temos que 1 mais 1 é  igual a 1, um só conjunto de dois lados combinados ! O que um dia foram 4 agora são um só.
-Olha, mestre, até agora, olhando para as duas pilhas de laranjas juntas, só consigo mesmo ver é 4 laranjas!
-       Ah, mas que infeliz! Escuta, cabeça oca, acabei de lhe mostrar como se vê as coisas do ponto de vista positivista; pense que cada pilha é uma entidade, não pense mais em laranjas, pois eu já não agüento mais falar de  laranjaaaas !
Paralucius teve de se acalmar de novo, então continuou:
-Agora, se pensarmos dialéticamente, teremos de lembrar de todos os gomos das laranjas, a casca, cada célula, etc, pois a dialética é como um gradiente, um espectro que vai além do positivismo, que admite apenas 2 lados. Ambos são opostos no que afirmam, mas ao mesmo tempo ambos se complementam, nenhum dos conceitos é errôneo, pois um vai além do outro , e pode –se afirmar que o positivismo é a dialética, só que vista de um ponto de vista muito limitado. Entendeu?
-Entendi! O senhor quis dizer que se cada um de nós pegarmos duas laranjas e somarmos as quatro com violência, teremos um só  suco de laranjas !
-Ah, não adianta! Depois de uma destas, a única conclusão racional em que consigo pensar é : Penso, logo desisto !


                                                           FIM

Cristiano Camargo

Sensibilidade de Viver Origens-Episodio 10






Enquanto isto, Lune seguia pelas ruas, em meio à multidão sem rosto.O que ela sentia? Nem ela sabia! Sua mente estava em um silêncio de morte, exausta, sem condições de pensar em nada!
Ao passar na frente da vitrine de uma livraria, quase que automaticamente, por força do hábito, ela resolveu entrar e do mesmo jeito foi na seção de filosofia e pegou um livro qualquer e começou a ler sentada numa cadeira sem nem entender o que lia.
Aos poucos, no decorrer das páginas, as palavras começaram a soar em sua mente e a fazer sentido novamente. Quando percebeu, estava lendo Lukáks,  e a frase "O proletariado se realiza somente após a sua abolição" irrompeu em sua mente e uma profunda vontade de analisar seu significado e interpretá-lo e  criticá-lo incendiou seu raciocínio como rastilho de pólvora!
Parecia um carro cujo motor tivesse morrido e sido dada uma nova partida e ele voltasse a funcionar de novo a toda a potência. Tal como os circuitos de um computador processando uma informação e acendendo luzes em sequencia, seu raciocínio foi se reorganizando numa sequencia harmônica e pulsante e em instantes sua dor de cabeça sumiu, a tristeza evaporou, e seus neurõnios trabalhavam a todo vapor para compor novas teorias mirabolantes. Sua mente tinha recomeçado a trabalhar e seu trauma, fora enterrado lá no fundo. Um sorriso iluminou seu rosto e a tristeza deu lugar ao entusiasmo juvenil. A velocidade da leitura aumentou exponencialmente num ritmo frenético e novas informações  eram acrescentadas, separadas e guardadas para compor novos raciocínios numa velocidade que deixaria outras pessoas tontas !
Quando as lembranças do seu trauma tentaram voltar a tona, Lune lembrou-se de Kierkegaard: "Sofrer é só uma vez, vencer é pela eternidade", e outra frase dele que ela adorava; "Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente, não ousar é perder-se".
Foi o bastante para ela se consolar a si mesma e justificar sem comportamento e chegar à conclusão de que ela estava certa e fez o certo, evitando assim o remorso. Uma terceira frase do mesmo autor veio-lhe então à lembrança e lhe trouxe alento para continuar a se distrair e seguir em frente com sua vida: "A vida só se compreende mediante um retorno ao passado, mas só se vive para diante".
Pronto! Após esta breve pausa ela continuou a devorar o livro com os olhos e depois de Lukáks, foi ler "O conceito de Angústia" de Kierkegaard  e quando terminou, já estava quase escurecendo.
Alegre, fechou o livro e disse em voz alta:
-Adoro Kierkegaard ! Ele é tão lógico !
As pessoas ficaram olhando para ela, que deixou o livro sobre a mesa e saiu correndo para pegar o ônibus de volta para casa. Nem ligou para quem a estranhou e sorria de orelha a orelha !
Ao chegar em casa, Momiji dormia, mais calma, e Kazuo estava na biblioteca, telefonando para entregarem uma pizza para o jantar.
Ao ver a filha toda saltitante e feliz, Kazuo foi tomado pela surpresa, e, tendo terminado seu telefonema, viu que Lune exibia um raro e iluminado sorriso no rosto e o observava ao telefone.
-Oi, Pai, eu estou procurando o "Migalhas Filosóficas",  será que temos aqui? 

(por continuar)