domingo, 3 de agosto de 2014

Conto: O Pior peixe é o que quer ser pescado


*Este é o terceiro conto da série "O Suprassumo da Quintessência"







O velho mestre e guru  Paralucius Madraglifus estava sentado sobre sua almofada em seu salão no alto de sua Torre da Sabedoria, quieto, silencioso, com seu corpo magro e mirrado ostentando a cabecorra baixa, olhos fechados, enigmático como sempre.


Então a porta se abriu, e seu discípulo entrou sorrateiramente no salão. Observou pela janela o sol da manha, e deparou-se com uma novidade: em um canto do salão havia agora um aquário, redondo, e de generosas proporções, cheio de peixes ornamentais coloridos.
Curioso, o discípulo foi Ter com o Mestre :
-Acorda, Mestre acorda!
O Discípulo não sabia, mas o tempo todo olhos pequenos e penetrantes o seguiram pela sala desde que o rapaz entrou.
Nada.
-Acorda, Mestre, vamos! Ih, destas vez, acho que ele não esta’ meditando , nem dormindo, deve estar morto mesmo! Coitado, deve Ter morrido sentado...também, com cento e trinta anos de idade!
Dentes se cerraram , mal contendo a raiva.
-Será’ que se eu o acordar ele revive? Mestre, Mestre , acorda da morte, vai!
Paralucius não agüentou mais tanta estupidez e explodiu:
-Seu imbecil ! Estúpido! Discípulo ignorante !Ainda não consegue distinguir quando alguém esta’ meditando, dormindo ou morto! E o que você acha que e’ a morte? Algum tipo de sono do qual se acorda? Ainda não aprendeu o que e’ estar morto?
-Claro que não, eu não morri ainda! O senhor me ensina?
-       Ensino, seu energúmeno, ensino In Loco! Ah, haja paciência, como será que você chegou a ser tão ignaro deste jeito? O que e’ que eu fiz na vida para merecer alguém tão burro?
-       O senhor me ensinou tudo o que eu sei ! Tenho muito orgulho disto!
-       Mas eu não consegui lhe ensinar nada, seu asno! Seu manto de falta de inteligência crônica e’ tão espesso que ate’ hoje, depois de mais de vinte anos tentando lhe ensinar alguma coisa, você não aprendeu nada ! E você ainda Ter orgulho disto?
-       Manto, que manto, Mestre ?Eu não estou usando manto nenhum...
-       Ah, eu mato, eu esgano, eu arrebento, eu, eu...
-       -Calma, Mestre.
-       O que você quer afinal ?
-       Eu olhei o salão e vi este aquário tão bonito. Eu queria que o senhor me contasse sobre esta novidade.
-       Este aquário, e’ parte da sua lição de hoje. Na verdade e’ o tema de hoje.
-       Disse Paralucius, acalmando-se e levantando-se , indo em direção `a janela.
-       Olhe pela janela, esta’ vendo aquele riozinho do jardim japonês?
-       Mas e o aquário, Mestre? O senhor me disse que ia me ensinar sobre o aquário!
-       Esqueça este raio deste aquário idiota por enquanto! Veja se presta atenção no que fala, eu já’ vou chegar no aquário já , já !
-       Ah, então eu vou esperar o senhor chegar aqui, enquanto observo os peixinhos...
Paralucius arrastou o estudante pela orelha e quase o joga pela janela, furioso. Depois de tomar fôlego e  se acalmar, continuou sua lição:
-Já ouviu falar da Lenda do Pescador e do Peixe.?
-Ah, já sei ! E’ aquele lance de que se deve ensinar o pescador a pescar ao invés de dar o peixe a ele ! Ou será’ que e’  aquela que diz que se deve ensinar o peixe a pescar ao invés de se dar o pescador para ele? Droga, agora já não sei mais...
Paralucius quis chorar de raiva, mas acalmou. Tirou as mãos do rosto e continuou:
-Não me admiro com mais nada do que você fala. Bom, vamos continuar. Não e’ nada disto.  Em um riozinho como este, havia um cardume de peixes ornamentais. Mas quando chegava o pescador para sua pescaria, havia um dos peixes, que roubava toda a comida dos outros. Era esperto, e conseguia roubas as iscas sem ser fisgado. Na verdade, ele adorava o perigo, e desafiava o perigo o tempo todo. Era o único que tinha predileção pelo sakhe que o pescador jogava antes da pescaria, como era de costume local, pois adorava a sensação de embriaguez. Tudo este peixinho super confiante fazia ao contrario dos outros, inclusive sua brincadeira predileta era tentar nadar contra a corrente. Quando o pescador passava por situações difíceis e não tinha sakhe, o peixinho ficava revoltado, e mordiscava a cauda dos outros, e aproveitava a distração deles para roubar comida. Era o único que ia direto ao anzol para desafiar a morte.
O clima entre ele e o cardume estava sempre tenso.
Um dia o pescador foi ao rio com uma intenção diferente: queria novos peixes para seu aquário.
Para o nosso peixinho em particular, a rede de pesca era uma novidade. Depois de beber muito sakhe que o pescador jogara na água, ele se deixou apanhar propositalmente. Outros também foram capturados, embora tenham tentado fugir.
O pescador levou-os para seu aquário. Nosso peixinho, entretanto, era muito convencido . Achava-se mais forte e mais bonito do que os outros e que era mais merecedor da comida também. Assim, seu comportamento agressivo acentuou-se. Esta agressividade para com outros peixes acentuou-se ainda mais quando nosso peixinho se deu conta de que não havia sakhe lá.
Ele ficava cada vez mais bonito enquanto outros peixes iam ficando mais feios, e agora nosso peixinho já não se contentava mais com a comida, avançava nos outros para comer-lhes as barbatanas, e se alguém reagia agressivamente, ele ficava ainda mais agressivo, ate’ que um dia um peixe maior deu uma surra tremenda nele, que, revoltado e covarde, procurou compensar mordendo os mais fracos. Logo ele se viu isolado do cardume, e todos procuravam fugir dele, não por medo, mas por desagrado.
Um dia houve uma festa na casa do pescador, e convidados bêbados deixaram repingar sakhe no aquário.
O vicio do peixinho por saque voltou, mais poderoso, e o pescador notou que agora o peixinho estava mais calmo. Então, passou todos os dias a por um pouco de saque no aquário junto com a comida dos peixes. E o pescador continuou observando aquele peixinho curioso, o qual cada dia ficou mais e mais bêbado, e começou novamente a infernizar a vida dos outros peixes, mais e mais. Levou outra surra, desta vez tão grande, que precisou ser colocado em outro aquário menor para ser medicado. Mas continuou a receber suas doses de sakhe.
Sozinho, aborrecido, ele via o outro aquário ao lado e notou que os demais peixes estavam contentes e aliviados em não te-lo mais como companhia, e  que só ele os observava, e eles não. Ele mesmo não notava que quanto mais sakhe ia tomando, mais feio ia ficando, e que estava gordo e inchado. O pescador notou isto e parou com o sakhe.
Revoltado, o peixinho começou a pular na água, só quando o pescador estava olhando, numa atitude aparentemente suicida, mas que na verdade era para chamar a atenção do pescador, querendo dizer que o pescador tinha obrigação de dar sakhe a ele. Como engordava sem parar e decaia de saúde, o pescador no entanto entendeu que ele deveria ser recolocado junto aos outros peixes no outro aquario.E assim o fez.
O resultado no entanto foi desastroso: convencido de que era o rei do aquário e de que todos deviam favor a ele e ele não devia favor ou gratidão `a ninguém, seu comportamento abusivo foi ficando cada vez pior, e as brigas no aquário eram cada vez mais constantes. Não deixava comida para ninguém, tomava todo o sakhe que o pescador colocava, e mordia os outros sem perdão, e sempre que apanhava, procurava curar seu orgulho ferido no sakhe e nos peixinhos menores, para aliviar sua humilhação e derrota que ele mesmo provocava em sua covardia.
Um dia, o pescador perdeu a paciência com aquele peixinho, o apanhou e o levou de volta ao rio. Agora longe do conforto e das mordomias do aquario, ele notou que o rio era para ele um local sombrio, e que seu antigo cardume não estava mais lá. E que todos os outros peixes pareciam assustadoramente maiores e que queriam devora –lo. Não havia espaço ali para suas pequenas revoltas, suas manias, seus privilégios, e seu ego grandioso, falso e covarde, notou também que ele não era o único no mundo, que o mundo não girava em torno dele, e que, pior ainda e mais difícil de aceitar, o seu pequeno mundinho que ele construíra para si não existia !
Agora tinha medo do perigo, e revoltou-se, tentando inutilmente nadar contra a correnteza, justo em uma noite de tempestade. Foi arrastado pela correnteza sem do’ e sumiu na escuridão para sempre.
Agora, discípulo, faca de conta que você e’ um amigo do pescador e pergunte –me por que o Pescador o tirou do aquário.
-Porquê tirou o peixinho do aquário, Mestre?
-Porque  , como o Pescador notou que este  estava prejudicando a si próprio e aos demais peixes, e que não se adaptava e nem aceitava o mundo, e notou também que  não havia quem pudesse cuidar dele, nem o cardume do rio, nem o do aquário, nem podia se cuidar sozinho, e que o próprio pescador não conseguira satisfazer o exigente peixinho revoltado, decidiu-se a solta –lo em um segmento distante do rio dizendo: “Deixemos então a Correnteza cuidar dele. A Correnteza sabe o que faz. Deixemos que ele siga na Correnteza o destino que ele mesmo escolheu para si, e que seja este seu Destino”.
Paralucius, contemplando o aquário, perguntou ao discípulo:
-O que você entendeu desta lição, meu jovem aluno?
Eu, o autor, deixo ao cargo de você leitor, agora, pensar em o que pode ser aprendido aqui...


                            FIM

 

Antes daquela fria manhã de Outono-Episódio 11:O Acidente de Nami




Voltando um pouco no tempo, Nami se sentou na poltrona que ficava na janela, bem acima da asa esquerda.Depois do avião taxiar, quando ele acelerou para a decolagem, ela notou que o barulho dos motores estava meio estranho.Já na decolagem, os passageiros sentiram um leve cheiro de queimado.Mas o avião chegou na sua altitude de cruzeiro, o cheiro passou, o barulho dos motores pareceu normal, e o aviso de que já se podia tirar o cinto de segurança se acendeu.
Um  frugal café da manhã foi servido, e Nami estava apreciando-o quando o avião sofreu um solavanco repentino, e o alarme para por os cintos de segurança foi acionado.Todos acharam se tratar de uma turbulência, mas então, uma vibração intensa tomou conta do avião inteiro, como se ele estivesse num liquidificador.Parecia que ele iria se desmontar peça por peça.E ia mesmo, pois foi com horror que Nami viu um dos motores se desprender  da asa e cair!
A trepidação virou um chocalhar violento e rachaduras apareceram pela fuselagem, e um barulho surdo de revestimentos internos da cabine se desprendendo,bagageiros caindo nas cabeças dos passageiros, máscaras de oxigênio também caindo, e os passageiros, Nami, inclusive, entraram no mais absoluto pânico.
Ela podia ver o avião se contorcer, o horrível barulho de metal se rasgando e  rebites saltando para fora,e a aeronave mais parecia feita de borracha flexível.
Ao olhar para a janela ,Nami e outros passageiros viram a asa esquerda se desprendendo do avião, e um barulho muito mais alto e assustador do que um trovão foi ouvido, e a cabine se rasgou, apenas dois assentos à frente de Nami.
Ela viu, horrorizada, a outra metade do avião se desprender da fuselagem e cair com todo mundo dentro, despencando no abismo de dez quilômetros de altura.
Por alguns breve segundos, a parte em que Nami estava ainda flutuou,depois emborcou.O vento estava infernal, parecia que os cabelos dela iam ser arrancados!
A parte traseira da fuselagem então despencou para o chão numa velocidade assustadora.
Nami estava absolutamente terrificada:seus olhos estavam arregalados e inchados, seu coração taquicardico, e em sua mente, apesar do pavor da face da morte,a imagem que lhe veio foi de Maki sorrindo para ela.Seu desespero se tornou maior, mas seus cabelos foram arrancados, assim como o couro cabeludo,os olhos saltaram para fora das órbitas e explodiram, e o ar entrando nos pulmões à uma velocidade quase supersônica, explodiu seus pulmões, fazendo a mesma coisa com o coração, e logo a cabeça era arrancada, e o corpo despedaçado,flutuou leve como uma folha seca antes de cair.O pedaço final do avião começou a rodopiar em parafuso e ao chegar ao chão já tinha se fragmentado em grandes pedaços e milhares de pequenos.Uma chuva de pedaços de corpos e do avião tomou conta do solo.De fato, o que dizia a reportagem era verdadeiro:ninguém conseguira sobreviver.Nem mesmo Nami!
Seu corpo antes vivo jazia inerte, despedaçado em centenas de fragmentos espalhados e misturados como s de outros corpos.Nem mesmo seu crânio permanecera intacto, liberando pedaços de cérebro para o ar.
Naquele dia, próximo a Nara, chovera sangue.E cadáveres também.

(por continuar) 


Sensibilidade de Viver Origens-Episódio 11





-Andou lendo Kierkegaard, filha?
-Sim, e Lukáks também !Depois da minha mãe brigar comigo, passei numa livraria e fiquei lendo estes dois !Então pensei, ah, estou com saudades, vou reler "Migalhas Filosóficas "!
-Um dia você terá saudades de seus pais também... pronto, aqui está! Mas por favor deixe para ler depois do jantar, pois daqui a pouco vamos ter pizza!
-De quê?
- De tomates secos, a que você mais gosta !
-Obaaa ! Só o senhor mesmo, paizinho, sabe direitinho do que gosto !
-Bom, filha, eu te conheço há quinze anos,tempo suficiente para saber o que você gosta e o que você não gosta, não é?
Disse Kazuo com ironia.
-Verdade, paizinho ! E onde está a mamãe?
-Ora, que milagre, você se preocupar com ela, está deitada !
-Ah, se ela está deitada, eu não preciso me preocupar com ela !Vou tomar um banho e me trocar!Tchau !
E ela deu um beijo na testa do pai e subiu as escadas correndo, com o livro na mão, nem percebendo que sequer tinha agradecido ao pai.
No jantar, Momiji, recém acordada estava surpresa ao ver Lune tão bem. Na verdade, fazia tempo que não a via animada daquele jeito!
-Será que ela arranjou namorado, Kazuo-san?
-Não, Momiji,bom, na verdade arranjou sim, e se chama Kierkegaard!
E Kazuo caiu na risada.
-Filha, você arrumou um namorado estrangeiro?
Ao ver o olhar de incredulidade da mãe, Lune não conseguiu esconder o riso baixinho, com a brincadeira do pai.
-É um filósofo, sua boba!Estou lendo um livro dele !
E continuou comendo a pizza tranquilamente, como se nada tivesse acontecido naquele dia.
Naquela mesma noite,já n cama, Momiji interpelou Kazuo:
-Como é que ela consegue ficar assim depois de tudo que aconteceu, só de ler um livro?
-Ora, querida, você esqueceu que ela é Asperger como eu?
-Ah, é mesmo, às vezes eu esqueço que você é também !
E foram dormir.
No dia seguinte,Lune foi para a aula como sempre, e para variar, separada da irmã.
No caminho, um bando de rapazes de bicicleta, estudantes da mesma escola, e conhecidos como jovens delinquentes,passaram correndo por Lune e levantaram sua saia.
-Ei !Estúpidos, pervertidos !
Gritou Lune, corada de vergonha e com raiva.Os garotos pararam suas bicicletas imediatamente, desceram delas e as cercaram.
-Do que você nos chamou, sua gostosa?
Lune desceu um tapa na cara daqueles no moleque que a interpelou .
-Como ousa me chamar assim,seu tarado?
-Ah, mas você é mesmo, nós vimos sua calcinha azul bebê !
Disse outro, que recebeu outro tapa, e Lune agora estava roxa de vergonha, e instintivamente colocou as mãos sobre as nádegas, pra impedir que tentassem levantar sua saia de novo.
-Escuta aqui, seu idiota, sai fora daqui ou eu chamo a polícia !
-Ah, a gostosinha está bravinha ! Vamos passar a mão nela, gente !
E os rapazes fecharam o cerco. Agora Lune estava assustada! Eram seis rapazes altos e fortes, com sorrisos maléficos e pervertidos nos rostos, prontos para estuprá-la.Ela tremia de pavor, e não sabia o que fazer, até que sentiu um deles a agarrar por trás, segurando seus braços e encoxando fundo nas nádegas dela.
-Vamos tirar as roupas dela !
E  várias mãos começaram a se aproximar dela, e agora ela suava frio,apavorada !
SPAAAF !
Uma mochila voou no rosto de um deles e um grito soou:
-Tire as suas patas imundas d minha irmã, seu nojento !
Era Ruri, que vira o que estava acontecendo e correra em socorro da irmã.
-Huum, uma baixinha invocada! Vamos pegar ela também !
Mas não tiveram tempo, pois logo atrás de Ruri estava Rina, que foi com tudo em cima deles. Aproveitando a deixa, Ruri também voou para eles aos socos e pontapés. Quando viram, os rapazes estavam sendo cercados por uma muralha de garotas, que passaram por ali, e já fartas das aprontações daquela turma, resolveram ajudar!
Agora em menor número, os covardes pervertidos pegaram suas bicicletas e fugiram.
-Tudo bem com você, Lune-chan?
Era a voz de Ruri,que estendeu a mão para ajudá-la a se levantar, pois tinha caido sentada no chão.
-Tudo bem, Onee-chan! Obrigada. E Lune se levantou.
-Vamos nós três juntas, Lune-san ! Você se machucou?
-Só meu orgulho, Rina-san, obrigada !
E as três seguiram para a escola.
No intervalo, sempre observada 'a distância pelo eternamente apaixonado por ela Takeo, Lune viu Ruri, que era de outra classe, entrar na sua sala de aula e conversar com Rina. Dali há  pouco sua irmã veio falar com ela:
-Onee-chan, hoje você vai almoçar comigo no telhado da escola, não com a Rina, quero conversar com você.
-Tudo bem.Não sei o que eu teria para conversar com você, mas vamos lá !
Depois de ir buscar seus sanduíches na cantina, as duas subiram as escadas e ganharam o terraço do telhado, e se sentaram no chão, junto 'a grade alta que as impedia de cair do terceiro andar.
-Lune-chan,eu sou sua irmã mais nova, mas a gente nunca conversa e...eu queria ser mais sua amiga!Quando estamos em casa você sempre me ignora, nunca vai para o meu quarto, a gente nunca sai juntas para se divertir...você já notou que você não participa da família?Nem parece que você faz parte...
-Ruri, nós partilhamos o mesmo pai e a mesma mãe, nós nascemos da mesma mãe e compartilhamos a mesma casa, isto não é fazer parte de uma família?
-Fazer parte de uma família não é só isto !Você nunca vem assistir televisão junto com todo mundo, ficam todos na sala e só você fica sozinha no seu quarto!Quando a gente era criança, você nunca queria brincar comigo, ou brincava sozinha ou ia brincar com a Rina ! Na verdade você trata a Rina como se fosse a sua irmã e eu como uma completa desconhecida !
-Ah, tenha paciência, pare de se queixar, menina ! Não somos mais crianças para ficar brincando. E tenho mais o que fazer do que ficar assistindo novelas e filmes idiotas na televisão !Depois,a Rina tem as conversas filosóficas pra debater comigo, e você, o que tem a me oferecer?Por favor, me dê uma razão lógica para ser sua amiga !
Os olhos de Ruri ficaram marejados.
Ela se levantou e , de frente para a grade de malha de aço, ficava dando soquinhos na malha, de cabeça baixa:
-Você não entende !Você não entende mesmo ! Pombas eu te salvei hoje de manhã, fui eu quem chamou a Rina, e me arrisquei por você e porque?Por que eu fiz isto?
-Por que você quis, Ruri-chan...
-Não ! Foi por que eu sou sua irmã e te amo, sua boba !Boba !Droga, eu deveria ter deixado aqueles moleques te estuprarem no meio da rua, mas eu..eu...eu não consigo, eu não aguento ver você sofrer,eu te amo ! Eu só queria ser sua amiga, algo tão simples, custa tanto assim você entender?Custa retribuir?Como você é fria,como você é insensível, a sua vida é só filosofia, filosofia, filosofia !Mais nada !Que ódio, eu nunca vou ser tão inteligente como você, mas para quê você usa sua inteligência?Para machucar quem te ama?Eu odeio você ! Eu te odeio !
-Bom, acho que já conversamos o que tínhamos para conversar, vamos voltar para a classe que o sinal já vai bater.
Foi quando alguém se aproximou e abraçou Ruri.
-Na verdade ela é sensível sim, quem a conhece a fundo sabe disto. Mas ela ainda não está pronta para entender. Mas pode ter certeza, Ruri-san, um dia ela terá saudades de toda a família!
-Obrigada, Rina-san, eu precisava ouvir isto...
-Está tudo bem, tudo bem, pode ir que eu tomo conta dela, vai tranquila, eu gosto muito de você, minha amiga.E me desculpe se afastei sua irmã de você...
-Imagine, Rina-san, você não tem culpa de nada, obrigada, eu vou indo !
Disse Ruri, enxugando suas lágrimas, e logo ela ganhou a escadaria.
-Vamos indo, Lune?
-Vamos !
Quando o fim de semana chegou, o telefone tocou. Era  a avó de Lune,e quem atendeu foi Momiji. O avô de Lune estava na UTI, após um grave AVC, e eles teriam de ir para Hiroshima para ir vê-lo. Porém, naquele mesmo dia, Otaru adoeceu. 

(por continuar)