segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Antes daquela fria manhã de Outono-Episódio 12



Episódio 12

Pela primeira vez, Maki teve de enfrentar uma dura e pesada realidade que lhe recaía como Atlas carregando o Mundo.
Na verdade, ele tinha de enfrentar, mas inconscientemente resolveu não enfrentar; caiu dura, estatelada no sofá,olhos esbugalhados e lacrimejantes,paralisada de pavor!
O Terror ! Ah,o terror de estar sozinha no mundo, da liberdade de ser solta dos grilhões da  dependência física, emocional e financeira de Nami!
Tivera sua alforria...
Mas aquilo custara à ela caro demais!
Por dois dias e duas noites ela permaneceu assim,imóvel.
Claro que as colegas de escola ficaram sabendo da morte de Nami, já que o nome dela apareceu nas listas de passageiros mortos nos telejornais e nos jornais. Sem falar de internet.
As quatro colegas foram à casa dela, escutaram a TV ainda ligada,tocaram a campainha até cansar e nada.Foram a porta e experimentaram a maçaneta.A porta estava destrancada.Entraram.
Viram a menina paralisada no sofá, catatônica,e tentaram acordá-la.Nada.
Ouviram o coração, ela estava viva.Jogaram água na cara dela,fizeram cócegas e nada.Desesperada, uma delas lhe deu um forte tapa no rosto.
Maki acordou.Abriu e fechou os olhos.Quando viu as garotas em sua cara, teve um ataque histérico:
-Nami disse que vocês estavam proibidas de vir aqui !Saiam daqui ! Saiam daqui!
-Mas Maki-san, a Nami-san faleceu!
-Não faleceu, Kotone-chan!Não faleceu não!Quem te disse que ela faleceu?A Nami-nee-san vai voltar amanhã! Ela volta amanhã e vou fazer uma torta de morangos para ela, que ela adora!
-Maki-chan, encare a realidade, o avião dela caiu, não houve sobreviventes!
-Foi outro avião, foi outro avião!Nami está viva ! Ela vai voltar amanhã!
-Maki-chan, não minta para si mesma...
-Eeeeelaaaa vai voltar amanhãaaaa! Vocês não entendeeeem?
Maki berrou 'a plenos pulmões,e continuou:
-Saiam daqui! Saiam já daquiiiiii!
As meninas ficaram assustadas com o descontrole da garota.Só que este descontrole ia piorar:
Maki começou a quebrar tudo o que via na frente e jogar objetos nas garotas, e avançou em Kotone com violência, enchendo-a de tapas, pontapés e socos violentos, como que movida por uma força sobre-humana, berrando como uma fera!
Agora sim as meninas saíram correndo de lá e trataram de chamar a polícia e uma ambulância.
Maki quebrou a casa toda, num acesso de fúria totalmente descontrolado, e depois caiu ajoelhada no chão da sala chorando convulsivamente,com uma dor que não cabia em seu corpo ou sua mente!
Ela gritou ,ainda de joelhos, mas sua voz mais parecia um uivo desesperado:
-Namiiiiii!Nãaaaaaaaaaao!
O pranto agora era histérico, o rictus da loucura deformando seu rosto,ensopado de lágrimas, as marcas sangrentas das unhas enfiadas nas carnes da face,e ela continuou quebrando tudo o que havia na frente!
Urinou e defecou na calcinha, de nervosa.Seus dias também se adiantaram e transformaram suas pernas,pés, nádegas e virilha numa "sopa" nojenta de dejetos e secreções malcheirosas.
Por fim as viaturas chegaram, e foram necessários dois homens fortes para imobilizá-la e aplicar-lhe uma injeção com  uma dose brutal de calmantes.Colocaram-na numa camisa de força e a levaram para um hospital psiquiátrico, onde ela foi amarrada no leito.
Finalmente, quando ela acordou, ainda grogue, as enfermeiras deram banho nela, trocaram suas roupas e deram comida e água para ela.
Assim que a consciência voltou completamente, uma psicóloga tentou entrevistá-la.
Tudo ia bem até a terapeuta confirmar que Maki só tinha Nami de parentes e nenhuma amiga ou conhecida que pudesse ficar com ela.Quando, no entanto, a psicóloga tentou dizer que agora Maki estava sozinha pois sua irmã e tutora havia falecido,Maki teve outro ataque histérico e se agitou tanto que regurgitou parte da sua refeição na terapeuta.Não contente, Maki tentou esganá-la, e novamente teve de ser imobilizada e sedada.
A psicóloga não viu outra solução: Maki tinha de ir para um orfanato em regime de internato e ser colocada  disponível para adoção.
Alguns dias depois ela foi levada, profundamente deprimida, ainda agarrada ao seu ursinho, ao orfanato.
Neste meio tempo, lá em Okinawa, Tetsuo ficou sabendo da morte de Nami no desastre de avião.Ele procurou localizar o corpo dela,viajando para Nara,e reconheceu o que restou do corpo, pagou o translado e o enterro.
Ele sabia da existência de Maki e lembrou-se das palavras de Nami, logo depois de fazer amor com ele, na última vez que eles se viram:
"-Tetsuo, meu amor, se algum dia alguma coisa acontecer comigo, cuide da Maki.Eu ainda não tive oportunidade de apresentá-la a você,mas ela é uma menina adorável.Ela é muito sofrida porque perdemos nossos pais muito cedo, e tive de ser mais do que uma irmã mais velha, tive de ser uma mãe para ela...eu simplesmente adoro minha irmãzinha, e ela não tem ninguém no mundo que não seja a mim...nunca a deixe sofrer, Tetsuo, eu conto com você!".
Tetsuo então se informou e descobriu que ela tinha ido parar num orfanato, para ser adotada.Ele então entrou na justiça para cumprir o último desejo de Nami, e se seguiu uma intensa e longa batalha judicial para conseguir a guarda da garota.

(por continuar)

Sensibilidade de Viver Origens- Episódio 12






E o aniversário de Lune era no dia seguinte, domingo. Ainda assim, resolveram que Lune ficaria sozinha em casa naquele dia, para tomar conta do irmão doente.
Aquele 10 de Abril Lune nunca mais se esqueceria...
Ela normalmente nunca ligava par seus aniversários, ainda que, geralmente se conceba que o aniversário de quinze anos das garotas  é para ser muito especial.
Naquela manhã, bem diferente de outros domingos, Lune acordou com a casa vazia. Apenas Otaru estava no quarto dele, os outros já tinham ido viajar.Em cima da mesinha do telefone, debaixo da escada, um longo recado de sua mãe com as instruções para ela cuidar de seu irmão, horários dos remédios , etc.
De início, Lune estava bem, e planejava passar o dia  lendo e achava que assim, nem veria o tempo passar e logo estariam de volta.Ela sempre achou que se viraria bem sozinha e sempre imaginara poder ficar um dia sozinha em casa. Pois bem, aquele dia tão imaginado chegara!
Tomou o café da manhã do jeito que quis, mas ao abrir a geladeira, viu algo redondo e achatado numa embalagem de papelão.
Mas depois do desjejum, ela voltou para a geladeira e tirou a embalagem e a colocou na pia da cozinha e a abriu.Era um bolo !
Todo enfeitado, com os dizeres "Feliz Aniversário, Lune!" em cima.
E na tampa da caixa, um recadinho de sua mãe, que dizia:
"-Apesar de tudo, eu nunca me esqueço de você e te amo.Sua Mãe !"
Aquilo bateu fundo na consciência de Lune. Repentinamente a casa parecia muito mais vazia do que antes! Seu coração estava vazio.Ela engoliu em seco, mas a voz de seu irmão de dez anos de idade a chamando não lhe deixaram pensar, nem sentir...
Ela correu pra ler o bilhete das instruções e viu que era a hora do remédio dele. Como dizia o bilhete, todos os remédios estavam perfilados no aparador da sala, organizados na ordem correta.
Ela levou o comprimido e um copo de leite para ele, e o menino estava suando na cama e tremendo.Febre !
Lune, com seu braço direito levantou o tronco de Otaru da cama e deu-lhe o remédio para tomar, junto ao leite.Tirou o termômetro do bolso e  o colocou debaixo da axila do menino .
-Não se preocupe, Onii-chan, eu estou aqui pra cuidar de você !
-Você não foi com a mamãe?
-Não, estamos só você e eu aqui !
-Ai, não, vou morrer !Você cuidar de mim?Eu quero é a minha mãe !
-Bom, faz de conta que sou  mamãe agora, ok?
-Eu não quero, eu quero a mamãe de verdade !
-Eu já te disse que eu serei a sua mãe agora, entendeu?Quer fazer o favor de aceitar, moleque?
-Não é não ! A mamãe de verdade não fica mostrando os peitos !
Foi aí que Lune olhou para baixo e notou que estava sem sutiã e que a camisa do pijama estava disaboatoada até o umbigo!
Ela corou de vergonha e cruzou os braços na frente dos seios.
-Você que é um mau filho e fica olhando o que não deveria, seu pervertidozinho !
-É nada, a mamãe gosta muito mais de mim do que de você, que nem liga para mim !Você nem gosta da mamãe !Você não gosta de ninguém, por isto que ninguém aqui gosta de você e te deixaram para trás para cuidar de mim !
A sinceridade infantil do irmão dela agora doeu no coração dela, tal como se uma facada fosse desferida!
Ela pegou o termômetro de volta e marcava trinta e oito vírgula nove graus.
-Bom, daqui uma hora volto para ver se você melhorou!
-Não vai me cobrir?A mamãe me cobriria!Estou morrendo de frio !
-Mas que moleque chato !Haja a paciência que eu não tenho, viu?
-Se eu morrer vai ser culpa sua ! Papai, mamãe e a Ruri nunca vão te perdoar ! Nem a vovó !
Agora Lune começava a tomar consciência do tamanho da responsabilidade que era tomar conta do irmão!
Ele tinha razão, e ela, sem responder nada, o cobriu e desceu as escadas. Foi na biblioteca, mas o retrato do pai sobre a escrivaninha falou mais alto que os livros.Só então percebia que as estantes estavam cheias de retratos de família,com ela, Ruri, Otaru, seu pai e sua mãe, em muitas das fotos juntos e sorrindo e ela se via ainda criancinha pequena, sorrindo e alegre.
Que passado era aquele, que agora a atormentava?Que passado era aquele que ela não se lembrava, que parecia esquecido, de tão fundo que estava enterrado em sua memória?

(por continuar)

domingo, 3 de agosto de 2014

Poesia : Uma alma que uiva ao luar





 Sou como um lobo,
Um lobo solitário que uiva ao luar...
Meu coração toca no saxofone,
Uma  triste melodia...

Minha alma uiva ao luar
Meu coração e’ um lobo solitário,
De coração pesaroso,
Desgarrado do bando,
Solidão...
E o saxofone continua a tocar...

Toca notas agudas, roucas e tocantes
Tocando solo,
Como minha alma que se expressa!

Ao sax se junta uma guitarra agora,
Que grita cortantemente,
Como uma navalha,
Estraçalhando um coração,
Vazio de sentido
E cheio de compaixão !

Um anjo solta a voz
,Uma melancólica soprano,
Uma voz poderosa ecoa na densa bruma da noite escura e fria,
Fria como o coração solitário do lobo,
Que uiva ao luar,
Como mesmo exaspero que a minha alma !

Uivo, sax, guitarra, voz angelical,
Uma canção profunda e tocante e triste,

Agora e’ a vez do violino,
Que despeja notas qual lagrimas,
Ao vento gelado que as leva ao esquecimento,
Mas as leva com  seu tom agudo e navalhino,
Ao lago profundo,
Que espelha a figura triste da magoa da solidão!


Uma expressão comovente,
Um desabafo,
Todos estão chorando,
Sax, guitarra, violino, o lobo e o Anjo
Para a lua cheia bela e brilhante,
E um belíssimo coro agora coroa
E ecoa,
Minha alma  solitária e vazia,
Que lamenta a dor suprema e profunda,
De não  Ter ninguém ao meu lado  !

                          Fim



Cristiano Camargo
PS: Poesia premiada no V Prêmio Artur Bispo do Rosário,edição 2009.