domingo, 15 de julho de 2018

Episódio 35- Sensibilidade de Viver:Gestação


-Agora vamos continuar a chamada! Temos uma aula a  cumprir, e não podemos ficar aquém da programação  do semestre !
Disse Lune, em tom  firme.
A classe, apesar dos cochichos, obedeceu  e a aula continuou.
Mas neste ínterim, Katahiro esteve na Diretoria, onde desfiou um rosário de vitimismos para a Diretora , que escutou tudo atentanmente, com um sorriso nos lábios e um brilho nos olhos.
Normalmente ele levaria uma bronca daquelas e pegaria uma bela suspensão, mas a Diretora estava disposta firmemente a perseguir e prejudicar Lune de todas as formas que lhe fossem possíveis e que estivessem a seu alcance.
-Então, Katahiro-koukai, quer dizer que a Professora Lune é Comunista e feminista...bom, se ela é comunista, age contra nossa instituição, e se é feminista, age contra a instituição da tradição familiar japonesa!Não se preocupe, meu bom rapaz, nós a puniremos exemplarmente, muito obrigada pelas suas informações !Vá para casa e descanse por hoje e volte amanhã!
-Sim, senhora !Com licença!
Katahiro também se retirou sorrindo.
Quando a hora do intervalo chegou, o boato de que Lune seria comunista e feminista se espalhou pela instituição inteira,e, se já olhavam torto para ela, agora o olhar geral era de desprezo.
Mas , no momento, ela não pensava nisto enquanto saboreava seu sanduíche de yakissoba. Ela via, com felicidade, que  Sato e Makoto estavam juntos na mesa, conversando e sorrindo, e pareciam estar se dando bem e se aproximando.
Foi quando outra aluna  de sua classe  chegou a sua mesa:
-Sensei?
-Oi, Nanaka-houkai  ! E aí?
-Sensei, não é verdade o que estão dizendo por aí que a senhora é comunista, não?
-Não, não é verdade. Eu na verdade pendo muito mais para o Anarquismo  de Bakunin, embora o pensamento de Koprotkin igualmente me agrade muito em muitos pontos.
-Então a senhora é a favor da anarquia, da bagunça, da desordem?
-Nanaka-kouhai, aaah, você precisa estudar muito, menina, nem sabe o que é o Anarquismo e fica falando bobagens. Vá para a Biblioteca, ou pesquise na Internet sobre este assunto. Comece lendo sobre o trabalho de  Gerald Winstanley, The New Law of Righteousness, depois leia William Goldwin , por exemplo, Enquiry Concerning Political Justice, depois pode passar para Michael Bakunin, tente ler dele o The Paris Commune and the Idea of the State, e por fim, leia Peter Koprotkin, huum, acho que Act for Yourselves poderia ser uma boa para você, ah, não deixe de ler também Max Stirner e Proudhon, também gosto muito deles,aí você saberá o que é o Anarquismo e não falará bobagens... bom, agora preciso ir, que o sinal já vai bater !
Atônita, não apenas com o profundo conhecimento de filosofia de Lune, mas também em ouvir falar de tantos autores que nunca tivera idéia que existissem, Nananka  foi para sua aula, sem compreender patavinas. Para ela, Anarquismo era simplesmente bagunçae acabou, eela não estava a fim de estudar estes autores, que, na cabecinha dela, eram todos “comunistas”, afinal, para ela, comunismo, socialismo e anarquismo eram tudo a mesma coisa,em sua total ignorância, era muito para a mente estreita dela entender as diferenças, e ela sequer tinha a menor vontade de entendê-las...
No fim, a conversa dela com sua professora só serviu para ela confirmar e espalhar por aí, que sua ´professora seria “comunista”.
No final da tarde, após mais aulas em um clima hostil  e tenso, era findo o expediente d e Lune.
Como planejado, ela se dirigiu então ‘a reitoria, onde falou com a secretária sobre seu projeto.
Questinada, a secretária lhe respondeu:
-Sinto muito, senhorita Lune, mas não posso fornecer informações , nem formulários para aplicações de pesquisa em campo para comunistas...
-Eeee?E quem disse que eu sou comunista?
-Todo mundo sabe, senhorita, a universidade toda sabe...
-Isto não passa de boatos infundados! E mesmo que eu fosse, não é crime ser comunista !Me aponte uma só lei na Constituição que diga que seja crime ser comunista !
-Aqui, seu nome está na lista vermelha de comunistas. Mas não é comigo que a senhorita tem de falar, só estou obedecendo ordens!
-E quem foi que deu esta ordem idiota e fez esta lista estúpida?
-A ordem veio diretamente do Reitor. É ele quem faz esta lista também.
-Você sabia que esta é uma restrição ilegal, e que posso processar a universidade?
-Não, senhorita, mas como eu já disse antes , só estou seguindo ordens, por favor aceite, entenda...
Lune, furiosa, bateu com os punhos na mesa e berrou a plenos pulmões:
-Mas ordens fascistas não se cumprem, ordens fascistas não se obedecem ! Quem tem caráter e honra não obedece a ordens fascistas !
-A senhorita por favor se acalme, ou eu chamo a segurança ! Não argumente comigo ! E ofender uma funcionária pública é crime !
-Você não é funcionária pública, esta universidade é particular, sua bitolada  !Burra !
Lune deu um tapa na cara da secretária e saiu, fechando a porta com estardalhaço.
Não demorou ela percebeu dois seguranças seguindo-a meio de longe, mas ela já estava indo embora mesmo...
Ela pegou seu carro no estacionamento e foi embora.
Quando chegou em casa, nervosa e estressada, recebeu a seguinte mensagem de texto no seu celular:
“Professora Lune Tamasuki,você está suspensa por três dias úteis como punição por suas repetidas insubordinações. Caso continue desafiando esta instituição, será sumariamente expulsa.
Ass. A Direção “
Ela abriu a porta do seu apartamento, entrou, encontrou Takeo vendo televisão na sala e disse:
-Eu não acredito ! Olha isto, Takeo-kun !
E mostrou a mensagem de texto.
-Nossa, amor, o que aconteceu?
Lune, frustrada e irritada, explicou o acontecido.
-Você?Comunista? Eles definitivamente não te conhecem !Tremendamente injusto o que estão fazendo contigo !
-Takeo-kun...é muita pressão...eu não aguento mais !
E Lune chorou de nervosa no ombro do marido, que a abraçou e acariciou-lhe os cabelos.
-Shhh, calma, amor, calma, não fique assim tão nervosa, lembre-se do nosso bebê...olha, talvez seja melhor você mudar de faculdade, esta está muito hostil a você, e , principalmente o pessoal da direção e acima, são muito fascistas, prepotentes, autoritários, não vale a pena ficar onde não é bem recebida, onde as pessoas não gostam de você! Aproveite estes três dias para pesquisar outra universidade para você...
-Mas...eu vou desistir da luta?
-Tem lutas que não valem a pena serem travadas, querida, pois nos fazem mal e atravancam nossas vidas com obstáculos.Tem lutas que é melhor procurar outras. Olha, não estou dizendo para você desistir de seu sonho de se tornar uma historiadora de campo, estou dizendo para você recomeça-lo em outra universidade, uma que lhe seja melhor !
-Entendi, querido...é, eu acho que você tem razão...faz o jantar para mim, por favor?Estou com muita fome e com a mente cansada, estressada...
-Claro, meu anjinho, farei agora, eu estava mesmo aguardando sua chegada para fazer o jantar !
Enquanto esperava, seu celular tocou:
-Alô? Quem é?
-É a Keiko-san, sua antiga professora na faculdade, lembra de mim, Lune-san?
-Keiko-sensei ! Cllaro que me lembro ! Que saudades, que bom ouvir sua voz !
-Então, eu também, também tenho saudades de você! Mas não precisa mais me chamar de Sensei,  me chame de san,eu fiquei sabendo que agora você é professora na Universidade Kansai, aí !
-Sim,mas eu..talvez tenha de sair de lá...
-O que aconteceu?
Lune explicou tudo o que vinha lhe acontecendo.
-Não é muito diferente do que aconteceu comigo...olha, eu passei umtempo em Gifu, minha terra natal, mas recentemente recebi um convite para ir trabalhar numa universidade  lá em Kyoto, aí pertinho, e eles estão precisando de novos professores, posso indicar voc~e, se quiser!
-Puxa, Keiko-san, você é tão boa, amiga de verdade ! Eu quero sim !
-Tudo bem, falarei com eles então ! Aguarde, que logo te chamam !

(Por Continuar)


sábado, 14 de julho de 2018

Episódio 34-Sensibilidade de Viver:Gestação


Não demorou, Lune já estava novamente em casa. Encontrou Takeo se distraindo no computador.
-Oi, meu amor, sejas bem vinda !
-Obrigada, meu bem !Já jantou?
-Sim, jantei direitinho !
-Lavou a louça ou deixou para eu lavar?
-Lavei sim, querida!
-Ainda bem, estou super cansada...
-Como foi seu jantar com sua amiga?
-Foi legal, Takeo-san, foi bom para eu me distrair das pressões  e stress do trabalho !
-É, não é fácil mesmo...
-Bom, dar aulas, embora seja cansativo, é muito bom, mas...o que pega mesmo é a inveja das colegas e o autoritarismo da direção !
-Ah, empresas são assim mesmo, fofa, sempre tem disto. Mas olha, procura descansar, se distrair...
-Querido, olha, me desculpe não te fazer companhia hoje, mas...prefiro já ir tomar um banho e ir dormir!
-Sem problemas, já deixei a cama prontinha, do jeito que você gosta !
-Vc é um doce, maridinho...
Lune deu um beijo na testa dele e acariciou os cabelos dele, depois se sentou no colo dele de ladinho.
Ele lançou um olhar meigo para ela e acariciou o rosto dela com delicadeza.
-Você está se revelando um grande companheiro, sabia?
-Você também, minha linda !
Lune deu um selinho nele, e ele em seguida deu um nela.
-Boa noite, durma bem e até amanhã,querido...
-A você também, querida, você me faz bem !
-Você também !
Lune então foi para o quarto do casal, tirou suas roupas, tomou um banho, colocou uma camisola, vestindo por baixo apenas uma calcinha de algodão sem decotes, macia e com elástico suave para não oprimr a pele, e se deitou. Não deu vinte minutos, já roncava, de tão profundo o seu sono.Seu ronco, no entanto, era baixinho e delicado.
Takeo foi dormir meia hora depois de Lune pegar no sono.
No dia seguinte,como sempre, Takeo acordou antes da esposa, e deixou o café da manhã meticulosamente preparado para os dois.
Lune se levantou um pouco mais tarde e tomou outro banho, e colocou um shorts e um bustier, pois não queria correr o risco de sujar sua roupa de trabalho, a qual deixou pronta em cima da cama.
Então foi tomar o café da manhã e encontrou Takeo já de saída para o trabalho.
-Bom dia !Puxa, não terei sua companhia para o café da manhã hoje...
-Ah, minha esposinha, não fiques tristonha...eu já tomei o meu café da manha, mas eu fico mais um tiquinho para você não tomar seu desjejum sozinha !
-Mas você não vai se atrasar, Takeo-kun?
-Não, estou até um pouco adiantado, mas você seria melhor não se demorar na refeição ou chegará atrasada...
-É verdade !Então, tratar de comer !
Ela comeu o mais rápido que pôde, e depois correu a escovar os dentes e se arrumar.
Ainda só de calcinha sentada na cama, viu Takeo chegar até ela e lhe dar um selinho:
-Agora tenho de ir mesmo, meu bem, bom trabalho e boa sorte a você !
Ela correspondeu ao beijo e acariciou o rosto dele, e ele se foi.
Ela então correu a se trocar, se perfumar, se maquiar e colocar os sapatos, pegou sua bolsa, seu celular, seu material didático e correu para o elevador, depois para a garagem, pegou seu carro e foi para a universidade.
No caminho, ficou pensativa: dar aulas era legal, mas não era algo que ela queria fazer a vida toda. Na verdade, o objetivo profissional dela era trabalhar em campo, e fazer pesquisa histórica, como historiadora. Por isto, pensava na possibilidade de fazer uma aplicação para trabalhar em pesquisa.
Chegou na universidade com isto na cabeça, e decidiu-se; iria se informar sobre isto no final do expediente, na secretaria da Reitoria.
Como sempre, o clima na sala dos professores estava pesado e azedo, mas Lune resolveu simplesmente ignorar as provocações maldosas das colegas e sorrir para elas.
Ficou o menos tempo possível lá, e foi direto para a sala de aulas.
Mas lá, o clima não estava melhor. Foi quando então que seu olhar passou por Sato, e ela percebeu que ele estava com um olho roxo, o nariz sangrando, e tinha contusões nos braços.
Ela parou a chamada imediatamente.
-Sato-kouhai ! O que aconteceu?
-Foi um acidente, sensei...
Ele disse, todo envergonhado.
Lune olhou nos rostos de outros alunos e viu a expressão cruel de prazer sádico na cara deles.
-Não foi acidente coisa nenhuma, não minta para sua professora !Está literalmente na cara que seus colegas te bateram !Muito bem, tem poucos alunos homens aqui nesta classe, então não será difícil identificar: quem foi que bateu nele?
Silêncio sepulcral.
Mas Lune percebeu também, que era uma chance de ouro para a garota que queria namorar a ele se aproximar dele.
-Makoto-kouhai, por favor acompanhe o Sato-kouhai até a enfermaria e cuide dele !
-Sim , senhora, sensei !
Lune definitivamente não estava acostumada a ser chamada de senhora !
A jogada de Lune foi estratégica: ao mesmo tempo, “empurraria” Makoto para cima de Sato para ver se eles conseguiriam formar um casal, e assim, fazer Sato a esquecer,; por outro, ela deixando de leva-lo pessoalmente ‘a enfermaria, dissiparia os boatos de um suposto romance entre ela e ele, que não existia, nem nunca existiu.
Sato, por sua vez, claro, preferia mil vezes que Lune o levasse para lá, e foi de cara fechada e mau humor.
Já Makoto ficou toda feliz, e o pegou pelo braço e praticamente o arrastou ‘a força pelos corredores.
E a universidade inteira ver esta cena, por sua vez, reforçaria a falta de fundamento dos boatos sobre Lune, e geraria novos boatos sobre Makoto e Sato, o que teria o potencial de fazer os alunos esquecerem de Lune e se distraírem com outra coisa.
O sorriso de Lune era indisfarçável diante do sentimento de frustração da classe, que esperava que ela conduzisse o rapaz;
Mas este sorriso logo desapareceu, seguido por um semblante sério e severo:
-Muito bem, insisto: Quem foi que bateu em Sato-houkai?
Mana, uma das alunas, desta vez disparou uma provocação:
-Por que tanto quer saber, sensei?Acaso o ama tanto assim, para tentar proteger a ele?
Lune respondeu de bate e pronto:
-Por que bullying contra qualquer pessoa eu considero vergonhoso e de uma falta de caráter, de um fascismo inaceitável!Eu não o amo, eu sou casada e amo o meu marido, e você, o ama, Mana-kouhai?
A aluna corou da cabeça aos pés, não só pela provocação de Lune, mas também, e principalmente, pelo olhar de chacota das demais colegas.Era como se existisse uma norma na classe:era proibido amar a Sato, ou quem desafiasse este tabu seria imensamente ridicularizado e humilhado por todos.
-Ora, se não é uma reação sociológica de preconceito e aversão social aos Diferentes que estou vendo aqui...
Exlamou Lune em tom de ironia crítica ‘a classe.
-O bullying é uma tradição no Japão, da qual nos orgulhamos !Não toleramos os fracotes, só os fortes dominam !
-Ah,agora pronunciou-se o senhor machão garanhão todo poderoso fascista hipócrita, com seu falso moralismo e seus pseudo valores neoliberais, heim, Katahiro-houkai? Tinha mesmo de ser um homem metido a valentão, troglodita  e ignaro, machista e homofóbico mesmo !Covardes adoram defender suas machistices...
Katahiro, o aluno mais valentão e musculoso da turma, verdadeiro brutamontes, viciado em musculação,ficou furioso!
Ele se  levantou da cadeira, inconformado, e, para espanto da classe, berrou:
-Professora Comunista! Feminista !Feminazi !
Agora o semblante de Lune mudou de ironicamente sorridente para colérico:
-Respeite sua professora, Katahiro-houkai ! Que insubordinação e insolências são estas?Já para a Diretoria !Você está expulso da classe !
Katahiro, revoltado, chutou sua carteira e cadeira e saiu rosnando  xingamentos em murmúrio, e deixou a classe, que jazia em  um silêncio espectral, ninguém esperava um arroubo de autoridade destes de Lune,acharam que ela iria  se abater, se deprimir e chorar na frente da classe, mas ela era muito mais forte do que eles pensavam !
Mas agora a situação de Lune na universidade se complicava, pois ficaria com fama de comunista e feminista  no ambiente universitário todo. Afinal, a tradição da cultura japonesa, muito machista, demandava que as mulheres fossem submissas e introvertidas, e que nunca reagissem violentamente, sobretudo quando um homem gritasse com ela, ela teria de ouvir calada. Mas quem esperasse tal comportamento de Lune , não a conhecia, ela não era, nem nunca foi, mulher de se submeter a jugo de ninguém !

(Por Continuar)