segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Conto: Coração de gelo- Parte 1



Não faz tanto tempo assim, apenas doze mil anos atrás. Foi um tempo de outros homens, foi um tempo de outros animais. Foi um tempo de sobreviventes, em que o tempo parecia eterno, tão eterno como o inverno glacial, um tempo em que tudo o que era vivo teve de provar seu valor ,na perseguição pelo prêmio maior: a sobrevivência!
Hupp, o cavalo estava guiando seu rebanho por um lugar perigoso, que lhe era estranho. Seguia galopando quando a neve terminou e um lago congelado se iniciava. Era uma madrugada escura, gelada e agourenta. Os cavalos seguiram pelo lago com cuidado, pois era escorregadio. Eles não tinham idéia do quanto o gelo era fino. Mas pressentiam a presença de predadores, e estavam nervosos e preocupados. Já bem distantes das margens, ouviram um uivo, depois outro e outro, e um coro se ouviu, deixando-os mais gelados ainda, de pavor, não bastasse o frio intenso e cortante. Um passo, dois passos...
Crack !
O gelo se partiu. Hupp caiu na água congelante, ate quase os ombros, e tentava escapar dali de qualquer jeito. Afundou, voltou a tona, a beira da hipotermia, não conseguia nadar, a água começando a se congelar em volta de seu corpo, a respiração quase impossível, exaustiva.
Repentinamente ,a pupila do olho direito se dilatou, o  coração acelerou-se com violência, quase em taquicardia, uma enorme descarga de adrenalina  inundou seu corpo, em puro pânico:
Um lobo gigante, aproximou -se com sua alcatéia logo atras de si. .Hupp, em desespero mais se debatia quanto mais aquela dentuça alva a mostra se aproximava. A mordida fatal estava chegando. E não foi necessária.
O pavor fora tão grande que o coração de Hupp parara. O choque hipotérmico também contribuiu para isto.
Os outros cavalos caíram na mesma armadilha, e a alcatéia, esfomeada por dias de inanição, se banqueteou com as cabeças, pescoços e costas dos cavalos, já que eram as únicas partes a ficarem expostas fora da água congelada, onde os lobos gigantes, espertos e experientes, sabiam que não deveriam ceder a tentação de entrar. O gelo conservou as partes das carcaças dos cavalos que estavam abaixo dele como  se fossem vivos, mas o lago ficou com uma aparência ainda mais tétrica, com as caveiras dos cavalos acima da linha d’água.
Xer- Nosman ouviu os uivos e os relinchos desesperados ecoando e desaparecendo no horizonte. O adolescente  Cro – Magnon, a primeira raça de homens modernos que existiu, muito parecida com os homens atuais, mas que não existe mais, saiu da boca da caverna e entrou de novo para o conforto do fogo.
- Ouviste os chamados, meu pai?
- Sim. Os lobos gigantes. Mas o que me preocupa, meu filho, e’ a Morte de Dentes Longos!
- Eu nunca a vi.
- Espero que nunca a veja, filho. Quem a vê, geralmente morre. Você teve sorte, ela ainda não descobriu nosso novo esconderijo.
Estavam falando do terrifico felino de dentes de sabre, Smilodon callifornicus, pouco maior, mas muito mais forte do que os leões da atualidade.
- Uooreeeeaaaargh!
- Urspel anda de mau humor hoje.
-Sim, filho, e isto e’ mau sinal. Mas pelo menos os ursos das cavernas são mais comuns do que os bem raros Ursos gigantes, ainda mais terríveis do que as Mortes de Dentes Longos !
-Mas nunca nenhum Deus Urso nos atacou. Nos e que sempre os matamos.
Ele se referia ao Urso das Cavernas, maior que os atuais, mas predominantemente herbívoro e normalmente manso
-Acho que o Xaman já lhe explicou isto, filho, os Deuses nunca morrem, nos matamos apenas seu corpo. Seu espirito vive sempre.
- Como a Morte dos Dentes Longos?
- Respeite a Deusa da morte, filho. Ela e’ ma’, ela e’ cruel, ela e’ nosso pesadelo. Ela também vive sempre.
- Nunca ninguém tentou enfrenta-la?
- Os   poucos homens que tentaram, e foram poucos, estão todos mortos. Não se consegue enfrentar um Deus mau. Ele não nos da’ o corpo dele como os Bons Deuses, especialmente o Deus Urso. Como lhe disse, eles são maus.
- Uh! Ainda esta’ escuro .Melhor dormir.
- Isto ,filho. Quando amanhecer, teremos de caçar novamente.
- O que acha que os lobos fizeram aos cavalos?
- Deixe os espíritos dos cavalos em paz. Os lobos  gigantes os caçaram. Não vão importunar ninguém por uns tempos.
-  Mas eles não nos caçam !
- Eles são como todo animal que come carne, filho. Quem caca e tem fome, mata qualquer coisa. Pelo menos o outro tipo de urso, o Urso Gigante, e’ assim.
- Mas ele não e’ considerados  um Deus mau !
- Não, por sua raridade. Só’ e’ ma’  a Morte de dentes Longos, que e’ bem mais comum. Chega de falar disto. Amanha você conversara’ com o Xaman a respeito.
Xer- Norsman deitou-se na colcha de pele de urso, sangrenta, gordurosa e terrivelmente mal cheirosa, e pôs-se a dormir, não sem antes ficar observando por alguns minutos as sombras bruxuleantes refletidas na parede da caverna a luz da fogueira. O tempo passou, e a madrugada estava quase no fim, faltando uma hora  para amanhecer, quando se ouviu ao longe o trombetear dos Mamutes ao longe. O menino acordou assustado, mas logo identificou os urros.
Ele era fascinado pelos Mamutes. O tamanho deles o impressionava desde criança.
Mas como era muito jovem ainda para caçar Mamutes, seu pai não o deixava ir as cacadas, e ele só os via depois de mortos, e ajudava a descarna-los.
Aquela madrugada, decidiu-se por ir espia-los. Queria vê-los vivos, e de perto. Sabia que não podia acordar ninguém, pois era sabido já de muito tempo, que onde existissem Mamutes, existiriam Mortes de Dentes Longos, Ursos gigantes e Lobos gigantes e seu pai e o restante de seu povo o impediria de passar por esta aventura perigosa.
Levantou-se com cuidado, pegou a lança de caçar Mamutes de seu pai, e saiu da caverna ,já vestido com peles de...Mamute.
O frio estava congelante, o vento uivante acoitava-lhe a pele, a escuridão começava a se desvanecer agora.
Sabia que sua aventura  implicava em riscos de morte muito sérios, mas estava decidido a arriscar tudo para ver estas criaturas gigantescas.
Ouviu o uivo dos lobos gigantes ao longe, sentiu o cheiro de  predadores pequenos por perto, desviou-se do caminho deles, passou pelo lago congelado e pelas caveiras de cavalo horripilantes acima da superfície do lago, e, refeito do susto, quando a floresta acabou, ouviu os rugidos dos grandes elefantes peludos que procurava, já de perto. Escondeu-se atras de uma arvore e viu: lá estavam eles, gloriosos em sua majestade, os Mamutes. Podia-se contar uns vinte deles, e alguns filhotes. Estava simplesmente deslumbrado. Ele notou no entanto que repentinamente eles ficaram nervosos.
Pensando que eles o tivessem farejado, sentiu o vento, e percebeu que ele não era a causa daquela agitação.
(por continuar)

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